Resenha Nacional: O sol na cabeça - Geovani Martins

Autor Geovani Martins
Páginas: 119
Ano2018 
EditoraCompanhia das letras
GêneroContos/Crônicas
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Nota4/5
*Cortesia da editora
Sinopse 

Com a estreia de Geovani Martins, a literatura brasileira encontra a voz de seu novo realismo. Nos treze contos de O sol na cabeça, deparamos com a infância e a adolescência de moradores de favelas – o prazer dos banhos de mar, das brincadeiras de rua, das paqueras e dos baseados –, moduladas pela violência e pela discriminação racial. Em O sol na cabeça, Geovani Martins narra a infância e a adolescência de garotos para quem às angústias e dificuldades inerentes à idade somase a violência de crescer no lado menos favorecido da “Cidade partida”, o Rio de Janeiro das primeiras décadas do século XXI.


O sol na cabeça é um livro de contos sobre o dia a dia na periferia. O autor Geovani Martins conseguiu transformar a vida sofrida dos favelados em literatura, com essa coletânea de contos completamente impactante, que nos faz enxergar a favela com outro olhar.
As narrativas desse livro nos mostra a realidade da favela, as drogas como algo corriqueiro entre os mais jovens, o povo trabalhador, a opressão policial e também as diversidades que podem ser encontradas nesse ambiente populoso.

O conto de estreia do livro “Rolézin” é narrado com uma linguagem completamente diferente da que estamos acostumados a encontrar nos livros, o autor nesse conto e em alguns outros ao longo do livro opta por adotar a linguagem da favela, rica em gírias, figuras de linguagem e de expressão. Ter contato com esse primeiro conto narrado com essa perspectiva foi algo totalmente diferente para mim, mas acho que a linguagem adotada serviu para nos aproximar ainda mais do universo que o autor pretendeu nos apresentar.
“Já tava dado que o dia ia ser daqueles que tu anda na rua e vê o céu todo embaçado, tudo se mexendo que nem alucinação. Pra tu ter uma ideia, até o vento que vinha do ventilador era quente, que nem o bafo do capeta.”
A editora Companhia das letras me enviou esse livro juntamente com uma matéria sobre o autor, que nos conta um pouco sobre a trajetória de vida dele e o que o levou a escrever esse livro. Geovani Martins nasceu em Bangu, Zona Oeste do Rio de Janeiro e durante toda a sua vida esteve em contato com a favela. Diferentemente de alguns amigos que preferiram trilhar outro caminho, Geovani teve oportunidades na vida e acabou se tornando escritor.
Algo que eu achei bastante interessante na matéria que ele fala mais sobe o processo de criação do seu livro e que a periferia precisa ser tratada como algo em movimento :

“A favela hoje é centro, gira em torno de si, produz cultura e movimenta a economia. O favelado cria e consome como qualquer outra pessoa do planeta.”
O autor ainda conta que se inspirou nas próprias vivências para criar cada conto e que cada história em um “Q” de autobibliográfico, ainda que se trate de uma ficção.
Lendo esse livro eu saí um pouco da minha zona de conforto, tanto como cidadã e ser humano, quanto como leitora. Vocês que acompanham o blog sabem o quanto eu consumo livros de romance, então ao me deparar com esse livro cheio de narrativas da nossa realidade brasileira eu estranhei e ao mesmo tempo me delicie com esse livro sensacional.


Esse livro aborda temas muito tabus para a nossa sociedade de maneira corriqueira, como na realidade é, mas o que acontece é que dificilmente vemos isso sendo retratado tão fielmente em livros de ficção. As drogas, o tráfico e a violência policial está muito presente no nosso cotidiano, nos bairros onde moramos e nos noticiários. Mas é incomum ver esses temas em uma narrativa de ficção, geralmente quando são abordados é de um modo mais romantizado ou diatópico.
Um dos contos que mais gostei de fazer a leitura foi “Espiral”, achei completamente intenso e maravilhoso. O personagem cresceu vendo a violência ao redor da sua comunidade, os assaltos, como os assaltantes e as vítimas se portavam e resolveu estudar isso mais a fundo, como uma espécie de pesquisa de campo.

“Com o passar dos tempos essa obsessão foi ganhando forma de pesquisa, estudo sobre relações humanas. Passei então a ser cobaia quanto realizador de uma experiência.”
Então esse personagem encontra seu objeto de estudo, um homem desses bacanas e cheio da grana, passa a acompanhar os movimentos desse sujeito por algum tempo, como ele caminha, onde ele vai, onde mora e como age com sua família. Parece algo meio psicopata, mas era a forma que ele encontro para analisar as relações humanas. Achei o final desse conto muito bom!
Outro conto que prendeu bastante a minha atenção foi “Roleta-russa”, no qual nós temos um relacionamento entre pai e filho na base da autoconfiança e respeito. Almir é um trabalhador, pai de família que trabalha como segurança para por comida na mesa para o filho.

“Almir costuma dizer que prefere ganhar o filho pelo respeito, porque não confia em relações orquestradas pelo medo. Repete isso aos quatro ventos quando é interrogado sobre o desafio de criar um filho sem mãe.”
Paulo é apenas um garoto que está começando a aprender com a vida, sente muito orgulho do pai e fica todo feliz com a confiança que Almir deposita nele. O pai tem um porte de arma, que usa no seu trabalho, mas sempre procurou na base do diálogo alertar o filho das consequências que uma arma pode trazer e que o menino não devia jamais tocá-la.
Mas, Paulo não segue à risca a recomendação do pai, em um momento de descuido ele pega a arma para exibi-la para seus colegas, mas o medo de ferir a confiança que o pai sempre depositou nele o leva a repensar suas ações. Esse conto tem esse título muito sugestivo “roleta-russa” o que me levou a ficar bem temerosa do que pudesse acontecer no final.
O livro tem outros contos muito bons, mas não poderei falar sobre todos aqui, esse post ficaria enorme e vocês desistiriam da leitura. Mas recomendo que leia essa obra, não é uma leitura muito fácil ás vezes, tanto pelo fato de alguns contos serem escritos com uma linguagem repleta de gírias, como pelo teor das histórias “realísticas” que nos são apresentadas. Mas vale muito a pena ler.
Não é todo o dia que a gente vê um autor brasileiro fazendo sucesso no exterior, então quando o livro é vendido em mais de 8 países é por que tem um conteúdo realmente muito bom.
A Companhia das letras caprichou nessa edição, com essa capa linda de um material muito bom, com uma diagramação simples e bem confortável. Além disso, os contos são bem curtos, li esse livro somente no trajeto para a faculdade e consegui termina-lo em pouco tempo.
Não se esqueça de me dizer o que achou da resenha, se gostaria de ler o livro, se já leu e o que achou da leitura. Vou adorar saber.


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